quinta-feira, 23 de junho de 2011

Entre idas e vindas...

Eu já não me reconheço em tuas ruas. Não me vejo em teu porto. Se não me perco em ti é só por que não mudaste. Permaneceste estática como o concreto que te fez. Tu, porto velho ( cidade que eu nem conheço), não mudou. Tuas esquinas permanecem nos mesmos lugares, tuas avenidas correm sempre iguais. Independendo do tempo, elas levam pelos mesmos caminhos, aos mesmos lugares.
Não, não mudaste. Fui eu quem mudoi. Mudei e já não reconheço meu rosto no espelho em que te transformei. Não reconheço minha história no museu que ergueste em cada pedra do meu cotidiano. Nem nos balancos que ritmaram minha infância, nem nos meus desamores que me fecharam ruas. Não, meu porto tão velho e triste, não me vejo mais em ti...
É preciso que o mundo gire dentro de mim para que eu possa encontrar a estrada que me leve para casa. E um caminho que me permita reconhecer nela um lar.
É preciso ser estrangeira de novo. É preciso saudades para entender que não é a pedra que me conta histórias, mas eu que encontro nela minhas lembranças. Eu que faco de tuas ruas meu museu, do teu corpo meu espelho. É de meu amor que tu vira, não só um porto velho, mas Porto Alegre.

terça-feira, 14 de junho de 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

inversões

Quem disse que a terra pesa mais do que o céu? Ou que o peso dos homens é maior que o dos sonhos? É o céu que mantém a terra em órbita, não ao contrário. Ele que a atrai com seu peso gigante, denso de tantos ideais...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

domingo, 29 de maio de 2011

As prisões da memória.

Um ruido de passos se arrastando no assoalho de madeira enchia a casa, outrora silenciosa. Esse som, que se tornou assíduo nas madrugadas, a acordava no início. A deixava trêmula e petrificada na cama enquanto esperava o silêncio absoluto que a devolvia para seu sono. Mas agora, esse som que ecoava vazio embalava seus sonhos.
Aquela casa taciturna, que hoje só cantava à noite, já fora repleta de vida e som. Era uma farfalhar constante de risos e músicas. Uma confusão de desejos e amores deliciosos que se perdiam nas tardes longas... que brilhavam nas noites sem fim dos jovens.
Com o passar dos anos, as cores perderam sua nitidez. A falta de foco da visão que se deteriorava tornava impossível qualquer beleza. Ou feiúra. As duas, enevoadas, já não sabiam se diferenciar. E com os sons, com os toques, com os gostos... acontecia o mesmo. O corpo comecava a esquecer de como sentir. E o tempo de como acontecer. Naquela mesmice cinza e surda, os dias e as noites se atrasavam pra passar, enquanto a casa se tornava vazia e muda.
Hoje, tudo que se podia ouvir era o ressoar fúnebre do passado que se arrastava pela memória, rasgando o tempo com tanta forca que fazia ranger a casa de madeira. Somente na madrugada podia se ouvir o cantar daquele outro tempo. Aquele tempo que amedrontou com sua saudades, mas que não acorda mais a velha matriarca, tão acostumada com os fantasmas da perda.