Um ruido de passos se arrastando no assoalho de madeira enchia a casa, outrora silenciosa. Esse som, que se tornou assíduo nas madrugadas, a acordava no início. A deixava trêmula e petrificada na cama enquanto esperava o silêncio absoluto que a devolvia para seu sono. Mas agora, esse som que ecoava vazio embalava seus sonhos.
Aquela casa taciturna, que hoje só cantava à noite, já fora repleta de vida e som. Era uma farfalhar constante de risos e músicas. Uma confusão de desejos e amores deliciosos que se perdiam nas tardes longas... que brilhavam nas noites sem fim dos jovens.
Com o passar dos anos, as cores perderam sua nitidez. A falta de foco da visão que se deteriorava tornava impossível qualquer beleza. Ou feiúra. As duas, enevoadas, já não sabiam se diferenciar. E com os sons, com os toques, com os gostos... acontecia o mesmo. O corpo comecava a esquecer de como sentir. E o tempo de como acontecer. Naquela mesmice cinza e surda, os dias e as noites se atrasavam pra passar, enquanto a casa se tornava vazia e muda.
Hoje, tudo que se podia ouvir era o ressoar fúnebre do passado que se arrastava pela memória, rasgando o tempo com tanta forca que fazia ranger a casa de madeira. Somente na madrugada podia se ouvir o cantar daquele outro tempo. Aquele tempo que amedrontou com sua saudades, mas que não acorda mais a velha matriarca, tão acostumada com os fantasmas da perda.
4 comentários:
Tu escreve tão bem! Amo como tu é íntima de palavras que levam a clareza... Mas chega desse tema! né? temos tantas coisas boas sobre oq escrever :D
chega sim =) e obrigada ;D
Nossa... Que imagens essas que você criou... Imaginei a solidão depois da vida tão constante... Lindas suas palavras...
obrigada =D
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