terça-feira, 20 de setembro de 2011

Filha da violência.

Mesmo no teu sorriso mais belo, teus olhos ainda te denunciam.
E em teu abraco mais impessoal, ainda busca carinho...
Em cada momento de sonho, ainda há uma sombra.
E a quem beijar teu rosto, o gosto das lágrimas.

Há em ti o medo. Um desses que mancham uma família inteira de dor.

Escondido em teus olhos o medo dos agredidos.
Buscando com teus abraços os carinhos prometidos...
Em qualquer felicidade, foge das lembranças maltratadas.
E o gosto do teu rosto guarda o segredo das noites silenciadas.




Febre

Em movimentos infinitamente circulares o estômago se contorce enquanto busca palavras para vomitar a dor de ser. O corpo chora pelos poros as lágrimas que os olhos se negaram a chorar.
A confiança entre cérebro e corpo foi quebrada. Nem minhas pernas, nem minhas mãos me defenderão do chão se ele me puxar... temo que qualquer passo se torne uma queda.
Meu corpo treme, hesitando em se entregar para o frio que cresce. Mas ele ainda assim cresce. E as cobertas não bastam. Blusões são inúteis. Nada aquece o frio que vem de dentro...

terça-feira, 19 de julho de 2011

para um amigo...

Aos poucos, ele foi fechando os olhos. Foi internalizando tanto a vida, que esqueceu que lá fora ela pode ser ainda mais linda. Com as pálpebras pesadas, ele dormia ao longo dos dias. À noite, quase que sem ser, flutuava entre sonhos e pesadelos, que se misturavam com a realidade. Seus poucos suspiros de vida, nas raras vezes que acordava, eram entre batalhas imaginárias e vitórias inexistentes. Era neste mundo tão mais fácil pelo qual ele viajava sem nunca deixar seu quarto mal iluminado de madeira escura.
Independendo de sua indecisão entre os dias, o tempo continuava passando. Independendo de seu medo da luz do sol, ele continuava nascendo e morrendo circularmente.
Seus olhos cada dia fechavam mais, e seu sono entorpecia seu corpo. O mundo não parou de girar porque ele quis descer. Nem vai parar. Do lado de fora do quarto, num mundo sem batalhas míticas nem histórias gloriosas, pessoas que te amam te esperam. Atordoadas com suas vidas de olhos abertos, mas te esperam. E tem saudades...

domingo, 17 de julho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Entre idas e vindas...

Eu já não me reconheço em tuas ruas. Não me vejo em teu porto. Se não me perco em ti é só por que não mudaste. Permaneceste estática como o concreto que te fez. Tu, porto velho ( cidade que eu nem conheço), não mudou. Tuas esquinas permanecem nos mesmos lugares, tuas avenidas correm sempre iguais. Independendo do tempo, elas levam pelos mesmos caminhos, aos mesmos lugares.
Não, não mudaste. Fui eu quem mudoi. Mudei e já não reconheço meu rosto no espelho em que te transformei. Não reconheço minha história no museu que ergueste em cada pedra do meu cotidiano. Nem nos balancos que ritmaram minha infância, nem nos meus desamores que me fecharam ruas. Não, meu porto tão velho e triste, não me vejo mais em ti...
É preciso que o mundo gire dentro de mim para que eu possa encontrar a estrada que me leve para casa. E um caminho que me permita reconhecer nela um lar.
É preciso ser estrangeira de novo. É preciso saudades para entender que não é a pedra que me conta histórias, mas eu que encontro nela minhas lembranças. Eu que faco de tuas ruas meu museu, do teu corpo meu espelho. É de meu amor que tu vira, não só um porto velho, mas Porto Alegre.

terça-feira, 14 de junho de 2011