A gente tem que aprender a ouvir. Temos que ouvir o que vem do fundo de nossa alma, entender aqueles sentimentos tão estranhos, transformar aquela abstração em palavras.
Acho que as respostas estão mesmo dentro de nós. Claro que não todas. Mas aquelas que nos dizem respeito já estão aqui. Aqui dentro, presas em nós, só esperando serem traduzidas para nosso ser diário. Pra esse nosso ser que só parece constante, mas que busca todos os dias uma mudança. Ele parece constante pois nós o tornamos assim. E se o fazemos é só pela conveniência. O previsível é muito mais fácil de se entender e muito mais fácil de se lidar. Não exige grandes esforços.O imprevisível é mais difícil, mas é o que ele é. E o que ele quer é trazer para o mundo aquilo que prende dentro de si, aquilo que é vivo e mutável, que sente, que expressa, que produz. É nascer para o mundo com toda sua grandeza, beleza e fragilidade.
Mas a gente não deixa. A gente não se deixa nascer. A gente não mostra esse nosso ser. A gente o esconde, o abafa com mil regras. Com mil medos. A gente torna a matéria prima de nossa alma algo cinza e sem graca.
Cinza e sem graca. Que nem essa cidade. Que nem essa alma de toda gente. Que nem essa alma minha que não mais sabe ouvir. Cinza, sem graca e surda.